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Beth & Betinha

Beth & Betinha

Exemplo de mulheres de fibra, que conseguiram aliar competência e seriedade ao talento, sensibilidade e feminilidade, numa época em que o preconceito imperava. Irmãs inseparáveis, Josabeth (a Beth) e Leonor Aparecida (a Betinha), Formaram a primeira dupla musical feminina do estado que permanece em atividade há mais de cinqüenta anos.

O pai, Manoel Brandão, uruguaio de Rivera, maestro e professor de música, teve 11 filhos, sendo vários instrumentistas.

Estudaram em Ponta Porã, em colégio de freiras e iniciaram a carreira artística precocemente aos 8 e 14 anos. A dupla Beth no violão e Betinha no acordeón já cantavam na Rádio CTAP 15, no Paraguai. A partir de 1955, fazia apresentações em cinemas, praças e salões paroquiais em várias cidades do estado.

Trabalharam em circos durante anos e conheceram Rodrigo e Rodriguinho. No circo de Nhô Pai, autor do clássico Beijinho Doce, e Nhô Filho. Excursionaram juntos por várias cidades e ao final de sete anos casaram-se e tiveram sete filhos. Separaram-se dos maridos, que foram embora para o Alto Paraguai após 12 anos de convivência, mas permaneceram juntas e através do trabalho com a música criaram os filhos.

Participam ativamente da vida cultural sul-mato-grossense há mais de cinco décadas. Entre composições e versões têm mais de 200 músicas. Venceram festivais de músicas aqui e no Paraguai e participaram de inúmeros projetos culturais, gravaram sete discos solo, sendo três CDs, e tomaram parte na gravação de várias coletâneas com outros artistas.

Numa prova inconteste de que arte não tem idade, ainda hoje são bastante atuantes. Acreditam que a música boa não tem fronteiras de ritmo ou geografia. Se tornarem famosas por cantar música sertaneja de raiz fronteiriça, chamamé.

Participaram do projeto Música no Pantanal, da Fundação de Cultura de MS e da Secretaria Estadual de Turismo, que consideram importantíssimo para a abertura de novas frentes de trabalho para os artistas.

Ídolos da nossa música sertaneja, Beth e Betinha dão as novas gerações exemplo de vitalidade e capacidade de renovação ao mesmo tempo em que comprovam a força da mulher sul-mato-grossense que, com muita garra, levanta a poeira da estrada.

 BETINHA - Infância na fronteira 

Eu e minha irmã Beth nascemos em Rio Brilhante, perto da fronteira do Brasil com o Paraguai, como nosso pai, de nacionalidade uruguaia, era maestro e professor de música, nossa família de 11 irmãos só podia ser muito alegre e musical. Vários eram instrumentistas e, assim, não poderíamos ser diferentes.

Apesar de estudarmos em colégio de freiras, muito cedo fomos convidadas a cantar na Rádio CTP 15, no Paraguai. A partir dali, nos tornamos conhecidas e fizemos shows nos espaços mais variados: cinemas, clubes, salões paroquiais, festas nas fazendas; e também nos apresentamos em cidades como Amambaí, Sanga Puitã e Ponta Porã.

Viemos para Campo Grande e aqui trabalhamos no Circo do Nhô Pai e Nhô Filho, onde conhecemos aqueles que viriam a ser nossos maridos e pais de nossos filhos: a dupla sertaneja Rodrigo e Rodriguinho. Excursionamos por sete anos  em vários estados brasileiros como Mato Grosso, Minas Gerais, Goiás e Paraná. Depois de alguns anos casamos. Beth tem três filhos, um é músico, o Márcio, que já tocou no grupo do Marlon Maciel. Eu tenho quatro filhos, sendo que são músicos o Jaime e o neto David. Nós duas nos separamos após 12 anos. Criamos os filhos sozinhas, com a ajuda dos amigos e de Deus.              

 Na juventude, fomos muito influenciadas pela música urbana, não só pela formação erudita de papai, mas também porque éramos ouvintes assíduas da Rádio Nacional. Nossos ídolos eram Caubi Peixoto, Marlene, Emilinha Borba, Dóris Monteiro, Maísa Matarazzo e Miltinho na música popular. Na música sertaneja, gostávamos de Pedro Bento & Zé da Estrada e do Trio Parada Dura. Além de curtirmos, também os sertanejos paulistas de moda de viola: Zé Teodoro e Sampaio, Gino e Geno e Irmãs Galvão.                       

A música sertaneja daqui recebe a influência das fronteiras, de São Paulo e Minas Gerais, porém em todo o estado predominam a polca, o rasqueado, a guarânia e o chamamé, as músicas da Bacia Platina que falam ao coração do nosso povo.                     

Temos grandes amigos e companheiros no meio musical, que muito admiramos,  como Tostão & Guarany, Délio & Delinha, Dino Rocha e o saudoso e talentosíssimo Zé Corrêa, com quem tocamos em muitos bailes pelos municípios. Ele era alegre, educado, respeitador, verdadeiro irmão. Sentimos perdê-lo tão cedo, aos 29 anos.

A música sertaneja atual mudou, evoluiu, expandiu-se, é mais pop, popular junto a juventude. A moda em Campo Grande é a música sertaneja universitária, que surgiu a partir das violadas nas casas e praças. Temos várias duplas boas, mas as pioneiras entre nós foram Marco Aurélio e Paulo Sérgio e João Bosco e Vinícius, que estão fazendo grande sucesso em todo o país, vendendo muitos discos.

Vencemos em 1958 o Festival de Música Guarani, realizado em Pedro Juan Caballero, no Paraguai. A seguir gravamos em São Paulo o primeiro disco, de 78 rpm, com as músicas Oh! Campo Grande e Malvado, rasqueado; em 1962, Baião Beth e Betinha, em São Paulo, na R.C.A. Victor, em 1965, A Fronteira, LP em vinil; em 1982,  C10 Branca, na gravadora CIS, no Rio de Janeiro; em 2003, o CD Mãe Natureza, na gravadora Sapucay, em Campo Grande. Em 2006, participamos do CD Gerações, além de várias coletâneas com outros artistas.

Entre composições e versões temos mais de 200 músicas gravadas em cinqüenta anos de carreira.

Participamos de inúmeros projetos de relevo da Fundação de Cultura de Campo Grande e da Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul como Trem da Cultura, Projeto Seriema, Festival de Música do Mercosul, Festival América do Sul, Festival de Bonito e Temporadas Populares.

BETH - Poeira da estrada

Foi muito gratificante para nós participarmos por mais de um ano da banda de rock Olho de Gato, com Fernando Bola na bateria, Luizinho no contrabaixo, Anderson na guitarra e Marcelo no vocal. Nunca imaginamos que iríamos nos renovar, voltar a juventude numa prova de que a arte num tem idade e a alma não envelhece. Dançávamos no palco e era uma loucura, o público vibrava e participava.

Estamos no projeto Música no Pantanal, da Fundação de Cultura de MS e da Secretaria de turismo do estado. É muito interessante podermos mostrar aos turistas a arte sul-mato-grossense e divulgar o estado lá fora.

Fizemos apresentações em quatro pousadas. Foi algo inusitado, que não esperávamos que acontecesse em nossa vida artística. Depois de cinqüenta e três anos de carreira, tocamos para turistas da França, Inglaterra, Japão, Rússia. Foi emocionante. Acompanhados, eles cantavam conosco.

Extraído do Livro – A Música de Mato Grosso do Sul (Histórias de Vida)

Maria da Glória Sá Rosa – Idara Ducan – Páginas 309-315

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